
Era uma vez uma família portuguesa, com um rendimento médio e a esperança habitual de quem acredita que trabalhar deve ser suficiente para viver com dignidade.
Começaram o mês com 100%. Confiança no sistema, contas feitas, tudo certo.
Mas depois…
- A casa levou 39%. Um T2, com sorte sem bolor. Ainda não é deles, mas é como se fosse — o banco deixou-os decorar.
- A comida levou mais 35%. E não estamos a falar de salmão selvagem nem de “brunchs”. Estamos a falar de ovos, arroz e carne picada.
- O seguro de saúde foi inevitável. O miúdo teve febre e a consulta mais próxima no público era… três semanas depois. Lá se foram mais 4%.
- O ensino privado entrou em cena. Porque a escola pública está em greve, sem professores, ou fechada por obras. Mais 6%.
- Precisam de carro. Porque o transporte público funciona em dias pares e só até às 18h. Mais 18%.
- E justiça? Têm um litígio qualquer a arrastar-se há três anos. O advogado cobra menos que o Estado cobra de IVA. Ainda assim, mais 2%.
Total: 104%. E ainda não compraram roupa, não jantaram fora, nem sonharam com férias. A nova matemática portuguesa diz que viver custa mais do que aquilo que se tem.
O problema não é a família. O problema é o país que os rodeia.
É o país onde os serviços públicos deixaram de ser resposta.
É o país onde o planeamento desapareceu e a visão ficou à porta de entrada.
É o país onde reformar dá tanto trabalho, que mais vale não mexer em nada.
Onde quem quer melhorar de vida é visto com desconfiança — como se fosse pecado querer mais do que apenas aguentar.
Tudo isto ao som de frases bonitas como “resiliência”, “esperança”, “investimento no futuro”.
Mas o futuro, esse, teima em não chegar. E o presente, esse sim, custa todos os dias.
Trabalhar devia dar para viver. Parece uma ideia radical, não é?
Não pedimos milagres.
Queremos só que o trabalho pague a vida. Que os serviços públicos funcionem. Que não sejamos forçados a pagar tudo duas vezes — uma nos impostos, outra do bolso.
E que, se quisermos empreender, arriscar, criar, não tenhamos de pedir desculpa por isso.
O país precisa de quem diga o óbvio: isto assim não funciona. E precisa, finalmente, de quem tenha coragem para fazer o que nunca se quis fazer.
Porque 104% de esforço por 70% de retorno já não é matemática.
É uma injustiça.