
Dizem estar fartos. Que estão exaustos, desiludidos, saturados dos de sempre. Mas quando chega a hora de decidir, lá vão os votos direitinhos para os mesmos nomes de sempre, embalados pelas manchetes dos media e pelo eco do sistema que tudo molda — até a ilusão de escolha.
Portugal, esse país de brandos costumes e fortes convicções… desde que não exijam sair da zona de conforto. Somos campeões da queixa, mestres na crítica de café e especialistas em indignação passiva. E no entanto, quando alguém de fora do “circuito” se apresenta como alternativa, é recebido com desconfiança, sobrancelha levantada e um comentário condescendente: “Mas este agora acha que pode ser presidente?”.
Porque aqui, aparentemente, só quem passou pelo crivo da máquina partidária, pela bênção das redacções e pelos corredores bem iluminados de Lisboa pode aspirar à presidência da República. É como se tivéssemos internalizado a ideia de que pensar fora da caixa é perigoso. Ou pior: é pouco sério. E se for alguém que fala de forma clara, directa e sem filtro? Ui, então é populismo! Não vá alguém perceber a mensagem…
Vivemos num país em que a seriedade política se mede pela quantidade de vezes que se aparece num telejornal ou se comenta num painel de opinadores rotativos — os mesmos que trocam de programa como quem muda de café, mas com a mesma receita: indignação medida, análise previsível e uma pitada de condescendência.
E depois há os media. Ah, os media — esse poder oculto que juram não ter. Um quarto poder que se comporta como se fosse o primeiro, moldando percepções, ignorando uns e promovendo outros com a subtileza de um elefante numa loja de porcelana. Tudo, claro, em nome da “isenção”. É a isenção selectiva, onde uns candidatos merecem o rótulo de “credíveis” e outros são tratados como notas de rodapé ou excêntricos que ousam estragar o alinhamento.
O mais curioso é que, mesmo cansadas do estado a que isto chegou, muitas pessoas continuam a ver com maus olhos quem não vem do mesmo molde. “É que não tem experiência”, dizem. Pois claro, porque décadas de “experiência” nos trouxeram onde estamos: um país que anda de eleições em eleições como quem anda em círculos, com os olhos postos nos mesmos rostos reciclados e slogans requentados.
E se, por absurdo, aparecesse um cidadão com coragem, com ideias, com percurso feito fora dos corredores habituais, o país ainda assim hesitaria. Porque temos medo. Medo da mudança, medo do desconhecido, medo da responsabilidade de escolher diferente. É mais fácil entregar o voto a quem já tem selo de aprovação institucional e deixar tudo como está. Afinal, sempre podemos voltar a queixar-nos mais tarde.
Mas atenção: a culpa nunca é nossa. É do sistema. É dos políticos. É dos outros. Nós, os do costume, limitamo-nos a obedecer às sugestões do algoritmo mediático. E depois espantamo-nos quando tudo fica na mesma.
Sou aquele que muitos julgam louco, fora do sistema, deslocado das engrenagens que sempre alimentaram o mesmo teatro político. E talvez tenham razão — porque tive a ousadia de acreditar que é precisamente fora do sistema que estão as ideias novas, a coragem que falta e a esperança que se perdeu. Por isso, sim, sou candidato à Presidência da República. Porque acredito, sem rodeios, que os que vêm de fora têm muito mais a dar do que os que lá estão há décadas… a tirar.
Enfim, viva a alternância… entre os do costume.